Por Rafaella Britto -
“Quem é essa mulher/Que canta sempre esse estribilho?/Só queria embalar meu filho/Que mora na escuridão do mar...”, cantou Chico Buarque em sua música “Angélica”, composta em homenagem a Zuzu Angel.
“Quem é essa mulher/Que canta sempre esse estribilho?/Só queria embalar meu filho/Que mora na escuridão do mar...”, cantou Chico Buarque em sua música “Angélica”, composta em homenagem a Zuzu Angel.
Falar de moda brasileira é falar de Zuzu Angel: a estilista mineira, sensível aos principais acontecimentos de seu tempo, forneceu novos olhares e reflexões acerca da moda como fenômeno social e instrumento de luta política. Através de suas coleções, Zuzu enfrentou a Ditadura em busca de seu filho, o militante socialista Stuart Angel Jones, brutalmente assassinado pelos militares no início da década de 1970. 40 anos após sua morte, Zuzu é lembrada como a estilista que lançou a moda brasileira no mundo. Como ela mesma se definiu: “Eu sou a moda brasileira.”
QUEM É ESSA MULHER?
Zuleika de Souza Netto nasceu em Curvelo, município de Minas Gerais, no dia 5 de junho de 1921. Quando criança, mudou-se para Belo Horizonte e, posteriormente, para a Bahia, onde viveu parte de sua adolescência. Já nesta época, Zuzu (como era conhecida) costurava roupas para suas primas e amigas, sempre imprimindo o toque pessoal pelo qual a viria a tornar-se célebre.
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| Zuzu Angel na infância (Foto: Instituto Zuzu Angel) |
Em 1943, Zuzu casou-se com o norte-americano Norman Angel Jones, de quem herdou o sobrenome. Da união com Norman, nasceram seus três filhos, Hildegard, Ana Cristina e Stuart Angel Jones.
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| Zuzu com seus três filhos, Hildegard, Ana Cristina e Stuart Angel Jones (Foto: Instituto Zuzu Angel) |
A família mudou-se para o Rio de Janeiro em 1947, e o casal separou-se pouco tempo depois. Com o fim do casamento, Zuzu teve de batalhar para criar seus três filhos com seu trabalho de costureira. Com o dinheiro que economizou, abriu seu ateliê em Ipanema. Não demorou a que seu nome ficasse conhecido entre a elite carioca e, por intermédio de clientes abastados que reconheceram seu talento, Zuzu levou suas coleções para as passarelas dos Estados Unidos, e encantou o mundo.
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| Zuzu Angel em seu ateliê nos anos 1970 (Foto: Reprodução) |
GLAMOUR COM TEMPERO BRASILEIRO
A moda brasileira limitava-se a ser cópia dos modelos estrangeiros. Zuzu quebrou paradigmas e foi a primeira estilista a empenhar-se na construção de uma identidade genuinamente brasileira. “A única vantagem de se fazer moda no Brasil é que temos mais fontes de inspiração do que em qualquer outro lugar”, disse. Sua proposta nacionalista influenciou significativamente a estética Tropicalista, e desencadeou um período de ufania e valorização da moda nacional.
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| (Foto: Instituto Zuzu Angel) |
O anjo (de seu sobrenome) era seu logotipo. A estilista levou Maria Bonita e Lampião para as passarelas internacionais. O estilo único da mineira, marcado pela utilização de seda, rendas, chitas, estampas naif e técnicas tradicionais do bordado nordestino, conquistou musas como Joan Crawford, Liza Minnelli, Veruska, Elke Maravilha, Jean Shrimpton e Kim Novak.
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| Na última foto, da direita para a esquerda: Zuzu Angel com Joan Crawford (Foto: Instituto Zuzu Angel) |
Pioneira do prêt-a-porter no Brasil, suas coleções eram vendidas nas principais boutiques de Nova York, como Bergdorf Goodman, Lord & Taylor, Saks, Henry Bendell e Neiman Marcus.
LUTO ALEGÓRICO
Os dias de intensa alegria na vida da estilista chegaram ao fim quando seu filho, Stuart Angel Jones, estudante de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), desapareceu, depois de ter sido preso por agentes da CISA (Centro de Informação e Segurança da Aeronáutica) em 1971. Zuzu saiu em busca de Stuart nos quartéis e prisões, porém sem sucesso.
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| Stuart Angel Jones, filho de Zuzu (Foto: Reprodução) |
A estilista tomou conhecimento das torturas sofridas por seu filho através de uma carta-depoimento escrita pelo preso político Alex Polari de Alverga. Segundo o relato de Alex, que consta do documentário “Sônia Morta e Viva” (dir. Sérgio Waisman, 1985), Stuart teria sido arrastado por um jipe através do pátio interno da Base Aérea do Galeão, com a boca no cano de descarga do veículo. Alex, preso numa cela ao lado, ouviu seus gritos e gemidos de dor (1).
A partir de então, Zuzu incansavelmente denunciou o assassinato e a ocultação de cadáver de seu filho, e se utilizou de seu prestígio internacional para envolver a imprensa e órgãos do governo americano em sua causa. Em carta redigida à esposa de um general comandante da época da Ditadura, Zuzu escreve: “O futuro mostrará meu filho como o Tiradentes da época dos computadores.”
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| "O futuro mostrará meu filho como o Tiradentes da época dos computadores", diz Zuzu em carta redigida à esposa de um general comandante da época da ditadura (Foto: Hildegard Angel) |
Em suas coleções, as cores vibrantes e alegres, e símbolos marcadamente nacionais cederam lugar a metáforas do sofrimento nos porões do regime militar: no que é considerado o primeiro desfile-protesto da história da moda (2), realizado em 1971 na embaixada brasileira dos EUA, Zuzu apresentou uma coleção que trazia tanques de guerra, pássaros engaiolados, jipes e sol atrás das grades.
Em 2014, as filmagens do desfile foram recuperadas pela TV Cultura.
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| Elke Maravilha posa com modelo da coleção de protesto de Zuzu Angel (Foto: Instituto Zuzu Angel) |
Em 2014, as filmagens do desfile foram recuperadas pela TV Cultura.
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| Zuzu em Nova York (Foto: Reprodução) |
Uma semana antes de sua morte, Zuzu escreveu a Chico Buarque: “Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho.”
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| Carta de Zuzu Angel a Chico Buarque: "Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho". (Foto: Reprodução/Tumblr) |
LEGADO
Zuzu encontra-se sepultada no Cemitério São João Batista (RJ). O túnel onde morreu chama-se, hoje, Túnel Zuzu Angel. Seu nome batiza o Instituto Zuzu Angel de Moda, organização sem fins lucrativos, fundada por sua filha, a jornalista Hildegard Angel, em 1993. Sua história foi para as telonas em 2006, no aclamado filme “Zuzu Angel”, de Sérgio Rezende, tendo Patrícia Pillar no papel-título, Daniel de Oliveira como Stuart e Luana Piovani como Elke Maravilha.
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| Luana Piovani e Patrícia Pillar no filme "Zuzu Angel" (Sérgio Rezende, 2006) - (Foto: Reprodução) |
O mineiro Ronaldo Fraga, influenciado pelo pensamento de Zuzu Angel, homenageou a estilista em sua coleção Primavera/Verão 2002, apresentada na São Paulo Fashion Week e aplaudida de pé: a coleção, intitulada “Quem matou Zuzu Angel?”, resgatou a memória da pioneira da moda brasileira, trazendo modelos com auréolas de anjo nas cabeças, desfilando em meio a bonecos gigantes suspensos em paus-de-arara imaginários. Fraga recriou símbolos como flores, cata-ventos e nuvens que choram (3).
EM TORNO DE ZUZU – ENCONTRO COM HILDEGARD ANGEL E ELKE MARAVILHA
Em 2014, o Itaú Cultural promoveu, em São Paulo, o evento “Em Torno de Zuzu – Encontros Sobre Moda, Criação e Política”, que reuniu estilistas, artistas, pesquisadores e intelectuais para discutir a obra de Zuzu Angel. Neste debate, Hildegard Angel, filha de Zuzu e idealizadora do evento, e Elke Maravilha conversam sobre suas vivências ao lado da estilista e a repressão à classe artística durante os anos de ditadura militar.
Referências:
(2) DÓRIA, Márcia. Curso Integrado de Moda - Desenho e Ilustração de Moda, Figurinismo e Estilismo: Apostila 11 - Costureiros, estilistas e grifes nacionais e internacionais do séc. XIX aos anos 90. EMP - Escola de Moda Profissional;



















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